Capítulo 12

Monitoramento, transparência e melhoria contínua

Este capítulo mostra como a prefeitura pode montar um painel mínimo de indicadores, criar rotinas de transparência e usar os dados para melhorar rotas, contratos e políticas, alinhando a coleta seletiva às metas de economia circular, PNRS, PLANEC e agenda climática. O foco é o que é factível na realidade brasileira: centrais de triagem cooperadas, muitas vezes em estruturas simples, mas capazes de produzir informação valiosa se forem orientadas e contratadas para isso.

12.1 Indicadores básicos: como medir com o que já existe

A maior parte das centrais de triagem cooperadas no Brasil não dispõe de grande infraestrutura de medição, mas quase todas têm o essencial: balanças simples, BAGS, caderno ou planilha para registro e notas fiscais de venda. Em vez de exigir equipamentos caros e distantes da realidade, este guia recomenda construir o painel de indicadores a partir do que é possível fazer hoje, com disciplina e contrato bem desenhado.

Na prática, isso significa organizar duas rotinas básicas:

  • pesar diariamente os BAGS de rejeito que saem da central;
  • registrar, por tipo de material, os quilos comercializados a cada

A partir dessas duas informações, é possível reconstruir o balanço de massa da central e derivar os indicadores mínimos de desempenho.

 

12.1.1 Princípio do balanço de massa na central

O método adotado neste guia parte da central de triagem, onde o material é efetivamente separado em recicláveis e rejeito. A lógica é:

Total de material recebido na central (em kg, por mês) = somatório dos materiais comercializados no mês (em kg) + somatório do rejeito gerado no mês (em kg).

Em palavras: some todos os quilos vendidos pela cooperativa no mês e todos os quilos de rejeito pesados nos BAGS no mesmo período; a soma desses dois valores é o total recebido pela central naquele mês.

Esse total recebido é a melhor aproximação do que foi coletado seletivamente no período, admitindo apenas pequenas perdas inevitáveis. Estudos sobre desempenho de sistemas de coleta seletiva no Brasil mostram que essa aproximação é adequada quando não há medições mais sofisticadas.

 

12.1.2 Rotinas mínimas de registro na cooperativa

Para que o balanço de massa seja confiável, o contrato com a cooperativa deve exigir – e apoiar tecnicamente – rotinas simples de registro.

a) Rejeito (medição diária)

  • Acondicionar o rejeito em BAGS padronizados, com especificação mínima no contrato (capacidade, tipo).
  • Pesar cada BAG em balança de piso ou balança de gancho disponível na central.
  • Registrar em planilha ou sistema simples: data, turno ou equipe, peso em kg e destino (aterro, transbordo ou outra destinação final adequada).
  • Somar diariamente os pesos e consolidar em relatório mensal, assinado pela coordenação da cooperativa e conferido pela fiscalização municipal.

b) Materiais comercializados (registro a cada venda)

  • Registrar para cada tipo de material (papel/papelão, PET, PEAD, filmes plásticos, PP rígido, metais, vidro, longa-vida ): data, comprador, peso em kg, preço por kg e valor total.
  • Arquivar notas fiscais e comprovantes de pesagem emitidos pelos compradores como evidência.
  • Utilizar esses registros para alimentar relatórios à prefeitura, o PMGIRS, o SNIS e as evidências requeridas por programas de logística reversa e de pagamento por serviços ambientais.

Essas rotinas cabem na realidade da maioria das cooperativas brasileiras e são suficientes para construir indicadores sólidos.

12.1.3 Painel básico de indicadores

Com os dados de rejeito e de comercialização, o município consegue montar um painel enxuto, mas robusto.

1- Total recebido na central (t/mês) Como calcular:

  • passo 1: some todos os quilos comercializados no mês;
  • passo 2: some todos os quilos de rejeito do mês;
  • passo 3: some os resultados dos passos 1 e 2 para obter o total em kg;
  • passo 4: divida o total em kg por 000 para obter o valor em toneladas.
  •  

O que mostra: volume de materiais provenientes da coleta seletiva que passou pela central no período.

2- Taxa de rejeito na triagem (%) Como calcular:

  • passo 1: some todos os quilos de rejeito do mês;
  • passo 2: some todos os quilos comercializados do mês com todos os quilos de rejeito do mês;
  • passo 3: divida o valor do passo 1 pelo valor do passo 2;
  • passo 4: multiplique o resultado por 100 para chegar ao percentual de rejeito.
  • O que mostra: qualidade da separação na fonte e da operação de coleta/triagem. Taxas altas fragilizam a economia da cooperativa e aumentam o custo municipal com destinação final.

3- Toneladas comercializadas por tipo de material (t/mês). Como calcular:

  • para cada tipo de material, some todos os quilos vendidos no mês;
  • divida o resultado por 000 para obter o valor em toneladas.
  • O que mostra: a “cesta” de materiais do município, a importância relativa de cada fluxo (papel, plásticos, metais, vidro) e a contribuição para metas de logística reversa e conteúdo reciclado.
    •  

4- Número de cooperados ativos e renda média mensal (R$/mês)

  • Base: relatórios internos de rateio, retiradas e comprovantes de pagamento.
  • O que mostra: se a política de resíduos está, de fato, entregando inclusão socioeconômica, e não apenas toneladas; estudos de reciclagem inclusiva destacam esse indicador como central.

5- Custo por tonelada processada na central (R$/t)

  • Como calcular: dividir o custo total do contrato de coleta seletiva + triagem, no mês, pelo total recebido na central (em toneladas) no mesmo mês.
  • O que mostra: eficiência da operação como um todo – quanto custa processar cada tonelada que entra na central, incluindo o que vira rejeito.

6- Custo por tonelada efetivamente recuperada (R$/t)

  • Como calcular: dividir o custo total do contrato, no mês, apenas pelas toneladas comercializadas (que voltam à cadeia produtiva) naquele mês.
  • O que mostra: quanto o município paga por tonelada que realmente é reciclada, lembrando que o rejeito ainda gerará custo adicional na disposição final.

7- Desvio de aterro (t/ano e %)

Como calcular toneladas desviadas: somar, ao longo do ano, todas as toneladas comercializadas pela cooperativa (somatório das toneladas comercializadas mês a mês).

Como calcular o percentual de desvio:

  • passo 1: pegue o total de toneladas desviadas (calculado acima);
  • passo 2: pegue o total de toneladas de resíduos urbanos gerados ou coletados no município no ano;
  • passo 3: divida o valor do passo 1 pelo valor do passo 2;
  • passo 4: multiplique o resultado por 100 para obter o percentual de desvio de aterro.

O que mostra: quanto a coleta seletiva cooperada reduz o envio de resíduos a aterros e lixões, em linha com PNRS, PLANEC e agenda climática.

    •  

12.1.4 Exemplo Numérico com 42 t/mês e 43% de rejeito

BOX 12.1 – COMO MEDIR COM BAGS, NOTAS FISCAIS E PLANILHA

Considere uma cooperativa típica, que comercializa em média 42 toneladas de recicláveis por mês. Em determinado mês, a rotina de registro mostra:

  • Materiais comercializados (todos os tipos somados): 000 kg
  • Rejeito (BAGS pesados ao longo do mês): 700 kg

 

  1. Total recebido na central

Some 42.000 kg (comercializados) com 31.700 kg (rejeito):

42.000 kg + 31.700 kg = 73.700 kg.

Para converter para toneladas, divida 73.700 por 1.000: 73.700 kg ÷ 1.000 = 73,7 t.

Ou seja, a central recebeu aproximadamente 73,7 toneladas de materiais oriundos da coleta seletiva naquele mês.

 

  1. Taxa de rejeito na triagem

Primeiro, some novamente o total de material que entrou na central:

42.000 kg (comercializados) + 31.700 kg (rejeito) = 73.700 kg. Em seguida, divida o rejeito pelo total que entrou:

31.700 kg ÷ 73.700 kg ≈ 0,43.

Para transformar em porcentagem, multiplique por 100:

0,43 × 100 ≈ 43%.

Isso significa que 43% de tudo que entra na central acaba como rejeito e 57% é efetivamente recupe-rado e vendido como matéria-prima secundária – patamar compatível com diagnósticos recentes de centrais brasileiras.

 

  1. Dois indicadores de custo
    1. Custo mensal de referência com base no CICLOSOFT

A partir da tabela construída com dados do CICLOSOFT 2023, o guia trabalha com um custo mé-dio de aproximadamente R$ 739,70 por tonelada de coleta seletiva. Se a cooperativa recupera 42 toneladas por mês, o custo mensal de referência do contrato (coleta seletiva + triagem) pode ser estimado assim:

42 t × R$ 739,70 por t ≈ R$ 31.067.

Para fins didáticos, arredondamos para R$ 31.000 por mês.

 

  1. Custo por tonelada processada (reciclável + rejeito)

Pegue o custo mensal de R$ 31.000 e divida pelo total recebido na central em toneladas:

31.000 ÷ 73,7 ≈ R$ 420 por tonelada processada.

Esse indicador mostra quanto custa processar cada tonelada que passa pela central, incluindo o que vira rejeito.

 

  1. Como a prefeitura usa esses números

Com esse balanço simples (comercializado + rejeito) e os dois indicadores de custo, o município consegue:

  • demonstrar, em relatórios, PMGIRS e SNIS, o desempenho da coleta seletiva em toneladas, rejeito e custo;
  • enxergar a urgência de reduzir o rejeito de 43% com educação ambiental, ajustes de rota e apoio à triagem;
  • discutir com a Secretaria de Finanças e órgãos de controle quanto custa cada tonelada realmente reciclada e quanto ainda se gasta com o rejeito que sai da própria central;
  • negociar com entidades gestoras de logística reversa a partir de dados consistentes e comparáveis com estudos nacionais.

12.1.5O que deve aparecer em contratos e normas

Para não criar exigências irreais e, ao mesmo tempo, garantir rigor na medição, contratos, decretos e planos municipais devem registrar, em linguagem simples, como o município mede a coleta seletiva com cooperativas. O ponto central é assumir oficialmente que o balanço de massa será construído a partir da central, com base em pesagem diária do rejeito em BAGS e registro das vendas com notas fiscais, e que o total recebido na central será calculado como a soma do material comercializado com o rejeito do período.

Essas definições precisam aparecer de forma clara nos instrumentos normativos, para que ninguém, no futuro, considere “falta de balança rodoviária” como desculpa para deslegitimar os dados da cooperativa. A partir daí, o próprio

texto dos contratos e planos pode afirmar que esses registros são considerados suficientes para alimentar indicadores do PMGIRS, da PNRS, do PLANEC e de metas climáticas, bem como para embasar modelos de pagamento por serviços ambientais, contratos baseados em toneladas triadas e recuperadas e a prestação de contas a câmaras municipais, tribunais de contas, Ministério Público e entidades gestoras de logística reversa.

Em síntese, o que hoje muitas vezes aparece de forma informal em planilhas da cooperativa passa a ser reconhecido, em norma, como o “padrão oficial” de

medição da coleta seletiva cooperada no município, dando segurança tanto para o gestor público quanto para a central de triagem.

12.1.6 Como justificar a contratação: medindo o impacto a partir do zero (o antes e o depois)

Quando o município decide formalizar a contratação de uma cooperativa pela primeira vez, é comum que a Secretaria de Finanças, a Câmara Municipal ou a própria população questionem o novo investimento. Para dar força política e sustentação jurídica ao contrato, a gestão não deve apenas medir a operação do dia a dia, mas demonstrar o impacto da mudança.

Se a cidade não tinha nada estruturado, o “antes” é a estaca zero (tudo ia para o aterro, os catadores viviam na informalidade). A partir dos primeiros meses de contrato, a prefeitura deve extrair dos dados operacionais um painel de impacto para justificar a contratação. Os quatro indicadores essenciais para essa defesa são:

  • Custo evitado com aterramento (R$/mês): Cada tonelada triada e vendida pela cooperativa é uma tonelada que a prefeitura não precisou pagar para enterrar.

Como calcular: Multiplique as toneladas recuperadas pelo custo da tonelada da coleta convencional somado ao custo da destinação no aterro. Mostre à equipe de Finanças que o contrato com a cooperativa gera uma “economia evitada” na outra ponta do sistema.

  • Evolução da renda e postos de trabalho (R$ e vidas): É o indicador de inclusão socioeconômica mais poderoso.

Como calcular: Compare a renda média dos cooperados antes do contrato (quando dependiam exclusivamente da flutuação do preço da sucata) com a renda após o contrato (quando passam a somar a venda de materiais com a remuneração pública pelo serviço prestado). O aumento na renda é a prova de que a política reduz a vulnerabilidade local.

  • Salto no desvio de aterro (%): O município que enterrava 100% dos seus resíduos passa a ter um indicador real de transição circular.

Como calcular: Mostre a evolução direta. Exemplo: “Saímos de 0% de desvio em janeiro para 4% de desvio no primeiro ano de contrato”. É um número simples, mas que atesta o cumprimento prático do Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PMGIRS).

  • Redução estimada de emissões (CO₂ equivalente): A gestão de resíduos é diretamente ligada à agenda climática. Reciclar materiais evita a extração de matérias-primas virgens e reduz as emissões de gases de efeito

Como calcular: Utilize calculadoras gratuitas de emissões (como as ferramentas do GHG Protocol, metodologias do MMA ou do ICLEI) para converter as toneladas de papel, plástico e vidro recuperadas pela cooperativa em toneladas de CO₂ evitadas. Isso permite conectar a coleta seletiva a fundos climáticos e metas globais.

Ao empacotar os dados dessa forma, o gestor público muda a narrativa: a contratação da cooperativa deixa de ser vista como uma “despesa extra ou ajuda social” e passa a ser contabilizada como um investimento em infraestrutura

que reduz passivos ambientais, poupa espaço no aterro, gera impacto climático positivo e injeta renda direta na economia local.