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Filme aborda a realidade dos catadores de recicláveis

Em meio a um projeto sobre a educação no país, com foco no pedagogo e filósofo Paulo Freire, a cineasta Tania Quaresma conheceu a realidade dos catadores - suas dificuldades e seu papel essencial na viabilização da reciclagem no Brasil. O contato foi tão marcante que o primeiro trabalho acabou sendo colocado de lado em prol de um novo projeto: “Catadores de História - Reflexões sobre ‘Lixo’, Consumo e Impermanência” que já se concretizou em um longa-metragem e outras ações.

O filme - apresentado aos próprios catadores durante a Expocatadores, em novembro do ano passado - conquistou três prêmios na 49edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro: melhor fotografia (Waldir de Pina), melhor trilha sonora (Dimir Viana) e melhor filme da Mostra Brasília pelo júri oficial. O longa-metragem retrata histórias de catadores de materiais recicláveis de várias regiões e promoveu um intenso diálogo com esses trabalhadores que puderam acompanhar o processo de criação por meio de exibições públicas de trechos do filme e opinar sobre o resultado. Os catadores Ronei Alves, de Brasília, e Alex Cardoso, de Porto Alegre, integraram inclusive a equipe de produção como assistentes de direção.

Parte de um projeto mais amplo que inclui oficinas culturais com filhos de catadores, exibição multimídia, livro/almanaque, coleção de folhetos de cordel e apresentações populares nos lixões e cooperativas de catadores, o filme “Catadores de História” é também o primeiro de uma trilogia que deverá contar com os longas “O que é lixo”, com depoimentos de pessoas sobre o significado dessa palavra, e “Lixo no mundo” que abordará a questão em outros países. O “Cempre Informa Mais” ouviu a cineasta Tania Quaresma sobre essa experiência. Confira:

Como e quando surgiu a ideia do filme?

Estávamos fazendo um grande trabalho sobre educação no país, principalmente sobre Paulo Freire, quando tomamos conhecimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Achamos uma proposta muito séria e importante e que deveria ser divulgada e popularizada para que não ficasse só no papel. Resolvemos deixar o Paulo Freire um pouco de lado e começamos a desenvolver um projeto em torno da divulgação da Política Nacional. Isso foi no final de 2012. 

Em 2013, entramos em um edital para longas-metragens e ganhamos com o filme “Catadores de História”. Até então, eu nem sabia que Brasília tem o maior lixão a céu aberto da América Latina, o lixão da Estrutural. Inicialmente, o filme seria apenas sobre esse lixão, mas quando mergulhamos no tema, percebemos sua amplitude, não é uma questão local, é nacional e planetária! O lixão seria fechado, depois não foi mais e, nesse processo, passamos a conhecer os catadores.

E como foi esse contato?

Primeiro, percebemos que era impossível fazer um filme sobre os catadores sem estar perto deles porque é uma realidade muito distante do nosso cotidiano. A partir daí, começamos a entrar em contato pessoal com vários catadores e tomamos conhecimento do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, inclusive fomos à Expocatadores de 2014, em São Paulo.

Foi um impacto muito forte, não tínhamos noção do nível de organização da categoria, de seu processo de conscientização e de como um movimento popular conseguia promover um evento desse porte. Aquilo tudo me impressionou muito. 

Convidamos, então, dois catadores para serem nossos assistentes de direção: o Ronei Alves, de Brasília, e o Alex Cardoso, de Porto Alegre. Foi no contato com eles que resolvemos que o filme não poderia estar restrito à Brasília. Eles nos fizeram ver que seria impossível mostrar a realidade dos catadores ficando só em uma cidade, teríamos que filmar em outras regiões brasileiras. E assim eles foram norteando nossos caminhos dentro de nossa ideia de não apresentar somente os aspectos negativos, mas fazer um diagnóstico amplo e revelar também o que há de positivo e as perspectivas.

Onde ocorreram as filmagens?

Fomos a Minas Gerais, onde abordamos a realidade de Belo Horizonte (a primeira cooperativa do país é de lá) e de Itaúna que é referência no país, com a cooperativa Cooperte, na qual os próprios catadores fazem um trabalho bem interessante de sensibilização. Eles se organizaram e têm conseguido sensibilizar a população. É uma iniciativa exemplar.

Fomos mostrar também o lixo amazônico que compromete as nascentes. Rodamos em Manacapuru e Manaus. No Rio de Janeiro, falamos sobre Gramacho, como foi o fechamento do lixão e os desdobramentos desse processo. Depois, fizemos São Paulo, onde tudo começou, levantamos um material histórico enorme, mostrando mobilizações importantes. E tratamos da realidade em Brasília, com o lixão da Estrutural. Ou seja, fizemos um painel bem vasto do tema.

E como o projeto evoluiu?

Antes de ir à Expocatadores, tínhamos filmado inúmeros depoimentos de promotores públicos, procuradores e diversas pessoas ligadas ao assunto. Mas, depois da Expocatadores, chegamos à conclusão que o filme, por questão até de justiça, teria que dar voz aos catadores que têm poucos espaços para se expor verdadeiramente. Definimos, então, que o filme só iria contemplar falas de catadores, a realidade deles. 

De posse da imensidão de materiais que coletamos, montamos o projeto “Catadores de História - Reflexões sobre ‘Lixo’, Consumo e Impermanência” que foi dividido em etapas e, em vez de um filme só, faremos uma trilogia. O segundo longa será o “O que é lixo”, a partir de depoimentos de pessoas sobre o significado dessa palavra, e depois virá o “Lixo no mundo” que mostrará a questão em outros países.

Além disso, como fotografamos muito, resolvemos fazer um exposição multimídia em Brasília, com curadoria de Humberto Macedo, de 23 de setembro a 7 de outubro de 2016 no Museu da República, que recebeu a visita de catadores de diversas localidades. Agora, estamos buscando recursos para produzir uma versão digital da exposição.

O projeto abrange também um livro, um almanaque e uma coleção de folhetos de cordel. Essa expansão se deu porque colhemos depoimentos fortíssimos e muito reveladores que resolvemos compartilhar, numa linguagem bem popular, mas profunda, que possa chegar à população, a escolas e servir de base também para estudos acadêmicos.

Como foi esse processo?

Tivemos um envolvimento muito grande de uma série de profissionais, mas com certeza esse processo seria impossível sem Geralda Magela que é a produtora executiva com a qual trabalho desde 1983. Fizemos tudo com olho no olho e isso faz toda a diferença para realizar um retrato das lutas, conquistas e perspectivas dos catadores no país, dando visibilidade a essas pessoas. Nossa maior vitória foi o reconhecimento dos próprios catadores, ver que eles gostaram do resultado e se viram representados.

Desse contato, surgiu também outro subprojeto que é o “Casa de Francisca” que foca na história e na vida de uma catadora de Brasília. O sonho dela, que vive em um barraco na frente do lixão, é ter uma casa para sua família e nossa ideia é fazer uma campanha via Facebook, em capítulos, para conseguir verba e também propor um modelo de construção sustentável que possa ser replicado em situações semelhantes. Vamos trabalhar com os diversos “filhotes” desse projeto até, pelo menos, 2020. É um mundo imenso, profundo e intenso para ser descoberto e revelado.

Para saber mais: