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Programa de Guarulhos visa universalizar a coleta seletiva

Guarulhos é a 13ª cidade mais populosa do Brasil, ultrapassando a marca de 1,3 milhão de habitantes, de acordo com dados do IBGE (2016). No estado de São Paulo, o município fica atrás apenas da capital. Com uma população desse porte, os desafios administrativos e operacionais também têm proporções elevadas. Entre esses desafios, está a gestão dos resíduos sólidos urbanos. Recentemente, Guarulhos inaugurou sua segunda Central de Triagem que vem se somar ao seu programa de Coleta Seletiva Solidária, criado em 2005 e desenvolvido por meio de cinco iniciativas distintas: Circuito Porta a Porta, Nossa Escola Recicla (com 137 escolas municipais), Nossa Secretaria Recicla (em 70 pontos), 10 Locais de Entrega Voluntária (LEVs) e 18 Pontos de Entrega Voluntária (PEVs) - que recolhem mensalmente cerca de 163 toneladas de recicláveis. Para falar sobre a nova Central de Triagem do bairro Ponte Alta e o sistema como um todo, o “Cempre Informa Mais” entrevistou Madalena Maria Rodrigues, da Divisão de Coleta Seletiva de Resíduos Recicláveis do Departamento de Limpeza Urbana da Secretaria de Serviços Públicos do município. Acompanhe:

Quando teve início a coleta seletiva em Guarulhos?

Como política pública, a Prefeitura de Guarulhos iniciou a Coleta Seletiva Solidária em 2005, mas antes disso já existiam ações pontuais importantes de catadores, entidades, empresas e gestores sensíveis à questão ambiental.

Quais foram os conceitos que orientaram esse processo?

Além da necessidade ambiental, cada vez mais presente nas últimas décadas, em 2001 foi instalado em Guarulhos o Aterro Sanitário que incrementou a demanda por uma gestão mais adequada dos resíduos sólidos na cidade, tanto para evitar que recicláveis acabassem no aterro como em função da preocupação pela redução de sua vida útil. A Prefeitura iniciou, então, o mapeamento de alguns coletivos de catadores no sentido de capacitá-los para se organizarem em cooperativas. Desse processo, surgiu a CoopReciclável que opera a Central de Triagem do bairro do Taboão há 11 anos. Nos últimos dois anos, acompanhamos o surgimento de mais coletivos de catadores e, recentemente, a Central de Triagem do Ponte Alta entrou em funcionamento.

Qual é a realidade da coleta seletiva no município hoje? 

Com a inauguração da Central de Triagem do Ponte Alta (operada pela Cooperativa Luta e Vida), que se somou em agosto deste ano ao sistema, atendemos pelos roteiros do Circuito Porta a Porta 9 bairros, abrangendo 15 mil domicílios, o que representa aproximadamente 5% do total de moradias da cidade. A Prefeitura também oferece o serviço de coleta seletiva aos moradores do entorno dos 18 PEVs e 10 LEVs espalhados pela cidade. Nossa meta, estabelecida no Plano Diretor de Resíduos Sólidos do município, é a universalização do sistema até 2020. Apesar do esforço realizado, ainda enfrentamos muitos desafios para atingir a cobertura completa de uma cidade tão grande como a nossa. 

Que tipo de desafios?

Diante das dimensões de Guarulhos, entendemos que é fundamental a implantação descentralizada de novas Centrais de Triagem. Seguimos a lógica de nossa Secretaria da Saúde, uma das mais capilarizadas do município, que se organiza em quatro departamentos regionais. Portanto, desenhamos um sistema com quatro Centrais de Triagem para evitarmos a circulação excessiva dos caminhões ou a sobreposição de roteiros de coleta pela cidade (duas já em funcionamento e duas em fase de análise e constituição). É uma contradição que, ao coletar os resíduos recicláveis, a logística não leve em conta a economia do consumo de combustível fóssil, com caminhões deslocando-se em grandes distâncias e transportando os resíduos para um só ponto.

Temos 137 escolas municipais e uma área total que chega a quase 320 quilômetros quadrados. A racionalidade logística do sistema é essencial para sua viabilização e sustentabilidade efetiva. Entre as dificuldades para expansão do sistema, está a falta de terrenos públicos livres. Ou seja, temos que responder a estudos de demandas regionais e necessidade de descentralização aliados à disponibilidade de espaços públicos disponíveis para essa finalidade e à conscientização da comunidade do entorno para compreender e apoiar a criação das Centrais.

A coleta é de responsabilidade da Prefeitura ou das cooperativas?

A logística da coleta é definida pela Prefeitura e pactuada entre as cooperativas. Alguns pontos são coletados por caminhões da Prefeitura e outros por caminhões e veículos das cooperativas. A CoopReciclável foi formalizada em 2004, quando tinha cerca de 15 cooperados, em 2005, começou a operar a Central de Triagem do Taboão e, hoje, tem aproximadamente 80 catadores.  Desde 2009, possui concessão de uso do terreno público onde está localizada a Central e, em sua infraestrutura, conta com esteira, balança rodoviária, balanças digitais, prensas, carrinhos hidráulicos, fragmentadora, elevador de carga, empilhadeiras e setor administrativo completo.

A Cooperativa Luta e Vida foi fundada em maio de 2015, com catadores da região do Bairro Ponte Alta que participaram de um processo de formação coordenado pelo Departamento de Limpeza Urbana, em parceria com a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, além do suporte da ITCP-USP (Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares), com reuniões socioeducativas, cujo objetivo é identificar, mapear e qualificar os catadores para inclusão no Programa Coleta Seletiva Solidária. A Luta e Vida tem, hoje, 9 catadores e ainda está iniciando os trabalhos, em função da inauguração recente da Central de Triagem que dispõe de galpão e uma edificação de apoio (com área para administração, depósito, cozinha, banheiros e vestiários). No entorno, foram plantadas 200 árvores com o intuito de oferecer um ganho ambiental para a comunidade e seu projeto prevê cerca de 1/3 do terreno para implantação de mobiliário comunitário, com lazer para as crianças e para convívio dos moradores da vizinhança. O CT do Ponte Alta tem, por enquanto, apenas uma balança que o Cempre propiciou e estamos esperando uma prensa. Temos outras parcerias que também deverão ajudar na melhoria da estrutura da cooperativa. 

E como se dá o funcionamento dos PEVs e LEVs?

Os Pontos de Entrega Voluntária (PEVs) estão espalhados em 18 bairros na cidade e recebem os resíduos da construção civil oriundos de reformas e resíduos volumosos, como móveis e utensílios velhos. Esse serviço é oferecido para pequenos geradores de resíduos e é limitado a receber 1 metro cúbico de material por munícipe/dia. Mas, apesar dessa finalidade inicial, a Prefeitura ampliou a oferta do serviço de coleta dos resíduos recicláveis domésticos para os moradores do entorno. Em dezembro, entrega à população o 19º PEV.

Os Locais de Entrega Voluntária (LEVs) acolhem exclusivamente os resíduos recicláveis, gerados em ambiente domiciliar, compostos por papel, plástico, metal e vidro que geralmente são caracterizados como embalagens. Temos 10 LEVs em diversas regiões do município, instalados dentro de unidades públicas como parques e nas Regionais Administrativas de Manutenção da Secretaria de Serviços Públicos.

Como é feita a conscientização da população?

O Departamento de Limpeza Urbana possui a Divisão de Educação Ambiental que trabalha especificamente as questões de resíduos, oferecendo, por exemplo, oficinas e teatro para as crianças e jovens.

Foram realizadas também oficinas com catadores que abordaram segurança no trânsito e educação ambiental, orientando-os para se relacionar com a comunidade e sensibilizar a população, sobretudo no entorno das Centrais. Em alguns momentos, o resultado é imediato, inclusive com os moradores levando os recicláveis diretamente para a cooperativa. A Divisão de Educação Ambiental também coordena as visitas monitoradas ao Aterro Sanitário, com ONGs e escolas públicas e privadas, que têm se mostrado uma vivência importante de conscientização. É preciso oferecer informação e infraestrutura para ampliar a adesão à coleta seletiva. Por isso, a responsabilidade compartilhada (sociedade civil, iniciativa privada e poder público) é essencial para impulsionar esse importante cuidado com o meio ambiente. 

Para saber mais: http://www.guarulhos.sp.gov.br/

Foto: Fabio Nunes Teixeira