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A gestão de resíduos sólidos nas plataformas marítimas

Eduardo da Silva Videla era ainda um jovem mergulhador profissional quando teve sua atenção direcionada para uma situação que, futuramente, se tornaria parte essencial de sua carreira: a gestão ambiental em alto-mar, com ênfase na correta destinação dos resíduos sólidos. “Nessa época, na década de 80, não havia tantas regulamentações das agências ambientais para evitar a poluição e, nos navios, era comum o procedimento de içar uma cesta de resíduos com o guindaste, colocar fogo e deixar queimando. Ao final, a cesta era baixada ao mar para concluir o processo, momento em que todos os restos saíam boiando. Logo percebi a necessidade de fazer algo em relação a isso”, lembra. E fez! Eduardo acabou direcionando sua vida profissional para a gestão de segurança, saúde e meio ambiente em unidades marítimas offshore - mais conhecidas como plataformas de petróleo. Também professor, consultor e escritor, ele falou ao “Cempre Informa Mais” sobre essa realidade que já foi inclusive tema de sua dissertação de Pós-Graduação em Ciência Ambiental pela Universidade Federal Fluminense (atualmente, Eduardo faz Doutorado em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros na própria UFF):

A logística é o maior entrave na gestão de resíduos sólidos nas plataformas?

O aspecto logístico é, com certeza, um desafio, mas não é o mais significativo. O maior problema da logística é que dependemos muito de condições meteorológicas. Isso significa que, se estamos com os bags cheios para enviar à terra e o tempo muda, o barco de apoio não tem como fazer a retirada e os resíduos vão se acumulando na unidade, o que gera um grande problema, principalmente devido à restrição de espaço e à dinâmica das operações que implica o recebimento e envio de peças e materiais a todo momento. Para superar o “desafio” logístico, é preciso um bom planejamento para a retirada dos resíduos, assim como a definição de áreas específicas para seu acondicionamento a bordo.

Há também a questão da diversidade cultural, como você cita em sua dissertação. Qual é o peso desse aspecto?

A questão da pluralidade é positiva em alguns pontos e negativa em outros. Trabalhamos, na maioria das vezes, com profissionais vindos da Europa, Estados Unidos e Ásia. Em outros países, porém, a legislação de segurança, assim como a ambiental, é mais branda. O Brasil é diferente, pois temos diversas regulamentações sobre o tema que são bastante rígidas, por sinal.

Quando um estrangeiro vem trabalhar aqui, ele traz suas raízes culturais e isso inclui, obviamente, a visão que possui sobre os procedimentos a serem observados. Temos que fazer um grande esforço de conscientização para que entendam nossas regras e as sanções em caso de seu descumprimento. Muitas vezes, ocorrem situações conflitantes, pois nem todos aceitam e seguem as normas. Na realidade, é um trabalho constante, não apenas em relação aos estrangeiros, mas aos brasileiros também.

Você aborda a influência do confinamento sobre a gestão de resíduos. Como isso ocorre?

Essa é uma questão bem curiosa. Fazer o gerenciamento de resíduos sólidos em uma empresa em terra parece relativamente simples se comparado à mesma atividade em uma unidade marítima. A maioria dos trabalhadores embarcados, em navios ou plataformas, está lá, sobretudo, em função do elevado nível salarial oferecido. No entanto, o fato de ficarem confinados - expostos a riscos de acidentes graves e distantes da família e amigos por longos períodos ou em datas importantes - torna tudo muito mais intenso. É necessária apenas uma palavra mal colocada para dar início a uma discussão. Vivenciei várias situações em que essa inquietação pessoal se manifestava, por exemplo, na separação propositalmente errada dos resíduos (como uma espécie de forma de protesto), mesmo com as pessoas conhecendo totalmente o código de cores para os materiais e a ampla oferta de coletores distribuídos e identificados. O atraso de um voo, devido ao mau tempo, por exemplo, leva ao adiantamento da volta à terra e pode acarretar maior incidência de problemas.

Economicamente, o sistema é viável?

Não há problemas de viabilidade econômica para a implantação e operacionalização de um sistema de gerenciamento de resíduos sólidos. Todo e qualquer material e/ou equipamento solicitado para tal finalidade é adquirido. As unidades são bem estruturadas nesse sentido, possuindo coletores devidamente identificados e de boa qualidade, sinalização indicativa, cartilhas de orientação, além de investimento em treinamentos internos e externos.

Posso afirmar que, atualmente, não existem unidades marítimas sem um sistema de gestão de resíduos sólidos, até mesmo porque este é um dos requisitos legais obrigatórios. As empresas são constantemente auditadas e, na falta desse gerenciamento, de tratamento de efluentes ou de um plano de emergência para acidentes ambientais, elas são multadas ou até mesmo interditadas.

Quais são os resíduos sólidos mais frequentes nas unidades offshore? Qual o seu destino?

O maior resíduo gerado é o orgânico que é triturado e lançado no mar, conforme determinação da NORMA (Norma da Autoridade Marítima) e Marpol 73/78 (Convenção Internacional para Evitar a Poluição do Mar). Os demais resíduos são metais, plásticos, madeira, óleo usado e papéis. Pilhas, baterias, vidro, cartuchos de impressoras e resíduos de serviços de saúde são bem menos significativos.

Cada tipo tem uma destinação específica, conforme seus riscos e características. Todos os resíduos originados em unidades marítimas são enviados em barcos de apoio para a terra, onde são acondicionados separadamente. De forma geral, vão para reciclagem, coprocessamento, incineração ou aterros sanitários. A rastreabilidade é responsabilidade da base de apoio que encaminha, posteriormente, à empresa geradora e contratante, a documentação comprobatória da destinação final, assim como as quantidades mensais enviadas.

Se os resíduos têm destinação adequada, quais os maiores problemas enfrentados?

A maior questão é a correta segregação na unidade marítima. Normalmente, há equipes treinadas que fazem a verificação dos resíduos antes de colocá-los nos bags para envio à terra. O problema é que essas equipes são formadas pelos empregados de menor nível hierárquico na unidade que chamamos de “homens de área”. Quando um desses funcionários é promovido, é preciso treinar um novo membro e essa rotatividade dificulta a eficácia do sistema. Acredito que seria interessante ter uma equipe bem formada e bem remunerada, com funções específicas para cuidar do gerenciamento de resíduos sólidos, o que diminuiria o risco de envio de materiais equivocadamente acondicionados. O outro problema, já citado, é a conscientização de todos que trabalham a bordo e que, deliberadamente, acabam utilizando os coletores de modo errado. Além disso, temos o aspecto da redução da geração de resíduos que também precisa ser trabalhado.

É possível quantificar a geração de resíduos nas plataformas hoje no país?

Segundo informação da Diretoria de Portos e Costas (DPC) da Marinha havia, antes da crise, um total de 174 unidades (navios e plataformas) no país. Uma unidade marítima com uma população média de 120 funcionários gera anualmente 34 toneladas de resíduos orgânicos, 9 toneladas de resíduos comum (não recicláveis), 75 toneladas de plástico, 40,2 toneladas de metal, 13,8 toneladas de madeira, 6 toneladas de papel, 1 tonelada de vidro, 14.300 litros de óleo usado. Pilhas, baterias e cartuchos de impressoras totalizam aproximadamente 1 tonelada.

É importante ressaltar que esses dados são baseados em uma média, sendo necessário considerar o tipo de atividade e a sazonalidade de cada operação. Multiplicando-se os valores por 174 unidades, temos números bastante significativos que ratificam a necessidade de sistemas de gestão eficientes e atualizados.

Para saber mais, envie um e-mail para: cousteau70@hotmail.com