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De catador a empreendedor

“Comecei na catação por causa de uma fatalidade. Um cunhado meu, que trabalhava no lixão com minha sogra, faleceu. Muito abalada, ela parou de ir e eu, como estava desempregado, resolvi assumir essa atividade”, conta Anderson da Silva Nassif, de 37 anos, de Orlândia (SP). Isso foi em 2003 e, desde então, a vida de Anderson deu uma guinada que também ajudou outros catadores que atuavam no lixão.

“Logo de início, percebi que ali se trabalhava muito, mas faltava articulação entre as pessoas”, lembra. O primeiro passo para a mudança veio, em 2005, com a assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) pela Prefeitura de Orlândia para a desativação do lixão. “Os catadores ficaram inseguros com a perspectiva do encerramento das atividades e foi aí que surgiu a ideia de formar uma cooperativa. No começo, houve resistência porque, apesar de serem todos companheiros, o trabalho era bastante individualizado. Insisti muito com os colegas, pois precisávamos nos unir para ganhar força.”

Sensível às reivindicações dos catadores, a Prefeitura cedeu por 20 anos o espaço para instalação da Cooperativa de Trabalho dos Recicladores de Orlândia (Cooperlol) que passou a operar formalmente em agosto de 2005. Na época, a coleta porta a porta era feita com um pequeno trator e os catadores obtinham uma renda mensal de cerca de R$ 120 (valor multiplicado por 10 atualmente). Mais do que simplesmente retirar os recicláveis, os onze catadores (dos 30 do lixão) que aceitaram participar da cooperativa buscavam conscientizar a população, explicando aos moradores a formação da Cooperlol e sua função socioambiental.

Em 2007, um reforço importante veio com a escolha da Cooperlol entre as 24 contempladas no primeiro edital para cooperativas feito pelo BNDES. Os recursos foram investidos na construção da sede - com escritório, cozinha, refeitório e dois vestiários - e compra de um caminhão, uma prensa e uma esteira, além de equipamentos de informática.

Três anos depois, a Cooperlol conseguiu, via edital da Funasa, recursos para a aquisição de outro caminhão e um picador de papel. Foi também nesse ano que a Secretaria Estadual do Meio Ambiente doou mais um veículo para a cooperativa. “Somos hoje em 31 catadores e contamos com três veículos, dois galpões cobertos numa área de 2.100 m2, duas esteiras e duas prensas, entre outros equipamentos. Em uma cidade com cerca de 40 mil habitantes, coletamos mais de 100 toneladas de recicláveis por mês”, enumera Anderson.           Ainda em 2010, a Cooperlol assinou o primeiro contrato de prestação de serviços junto à Prefeitura, com a remuneração de R$ 50 por tonelada coletada. Atualmente, esse valor é R$ 139,02.

Um dos recentes desafios de Anderson está ligado à formalização de uma rede de cooperativas, via projeto Cataforte 3, englobando onze municípios da região da Alta Mogiana e do centro do estado, sob coordenação da Cooperlol. Já está em andamento uma consultoria da Fundação Banco do Brasil para identificar a vocação da rede e dar início aos trabalhos a partir das oportunidades de negócios apontadas.

Em 2014, Anderson foi eleito membro do Conselho Municipal do Meio Ambiente (Condema) de Orlândia, formado por representantes do poder público e da sociedade civil, com atuação junto à Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Perguntado sobre a maior conquista desses dez anos de empreendedorismo, ele responde sem hesitar: “A perseverança do grupo em acreditar que era possível, mesmo diante das diversas dificuldades que enfrentamos. Realmente quem não desistiu e compreendeu o valor e a dinâmica do trabalho cooperado está colhendo bons frutos agora.” A maior dificuldade? “Fazer com que o poder público entenda que nós somos trabalhadores e não pedintes. Somos profissionais que demandam negociações corretas e respeitosas como ocorre com qualquer empresa. Queremos continuar cumprindo nosso papel na cadeia da reciclagem, com excelência, pelos próximos 10, 20, 30, 40 anos.”

Para saber mais:http://www.cooperlol.com.br/