CEMPRE INFORMA Número 156 Novembro/Dezembro

Desafios e Oportunidades

Cooperativas enfrentam os desafios para assegurar seu papel na cadeia

A crise econômica que atinge os mais diversos setores também vem dificultando o trabalho das cooperativas, reduzindo a oferta de recicláveis, as parcerias e os preços dos materiais. Diante desse cenário, felizmente, é possível encontrar exemplos de cooperativas que vêm conseguindo diminuir os efeitos da desaceleração, com boa gestão, planejamento e o apoio de empresas que mantêm seu compromisso com o modelo de coleta seletiva com inclusão social.

Para acompanhar e incentivar o avanço no monitoramento e controle das atividades do setor, a Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (Ancat) desenvolveu um sistema próprio, via web, que registra as atividades de assessoria técnica feitas por sua equipe junto às cooperativas e associações de catadores beneficiadas por seus projetos, bem como os volumes de recicláveis comercializados por essas organizações. O sistema monitora também os valores pagos pelos materiais e seus respectivos compradores.

Segundo Dione Manetti, assessor da Ancat, “a implementação desse sistema trouxe mais qualidade ao trabalho da Associação, pois permite que as informações fluam de forma mais ágil e sejam validadas com maior segurança. Isso tem colaborado para a construção de estratégias de atuação mais qualificadas, bem como tornou possível o acompanhamento dos projetos, via web, por parte dos financiadores.”

Entre os desafios apontados por Dione para a expansão do sistema, estão o avanço com modelos de negócio, no comércio dos resíduos, que garantam maior participação e retorno para os catadores, e o planejamento, coordenação e integração de ações de apoio às organizações de catadores, de modo a otimizar e potencializar os recursos aplicados. “Além disso, seguimos lutando pela garantia do pagamento dos serviços de coleta e triagem realizados pelos catadores, no âmbito público e privado. Sabemos que essa questão levará tempo e exigirá de nós maturidade e capacidade de dialogar, mas temos convicção de que estamos caminhando para que os catadores tenham o reconhecimento necessário e que, efetivamente, sejam remunerados pelos serviços que prestam à sociedade”, destaca Dione. Confira, nestas páginas, três exemplos de cooperativas que têm avançado por meio de parcerias com empresas e o poder público.

Foto: Arquivo Cempre

ASCAJAN - Fortaleza (CE)

A história da Associação dos Catadores do Jangurussu (Ascajan) e de seus 60 associados está ligada ao lixão do Jangurussu, desativado em 1998. “Sou do município de Pacajus e, quando cheguei a Fortaleza, tinha 16 anos, uma filha de colo e meu marido estava doente. Acabei, então, indo trabalhar no lixão”, conta Sebastiana Alves, coordenadora da Ascajan. “Quando aconteceu o fechamento, alguns catadores se tornaram carrinheiros. Mas conseguimos nos organizar e, em 2006, com ajuda do poder público, criamos a Associação, em um galpão vizinho ao antigo lixão.”

Hoje, a entidade está estruturada, bem instalada e equipada. “A reforma do galpão e a aquisição da esteira de triagem foram feitas, em 2014, através do Coletivo Reciclagem, programa da Coca-Cola que, além de doar recursos para melhorias, oferece capacitação técnica aos cooperados. Contamos com apoio também de órgãos governamentais, da Fundação Banco do Brasil, da Ancat e da Prefeitura de Fortaleza que fornece os motoristas dos caminhões que recolhem os recicláveis”, enumera a coordenadora da Ascajan.

A coleta é feita, de segunda a sexta-feira, por dois caminhões nos bairros, principalmente em condomínios, e bancos da cidade. Além da triagem realizada no galpão, 28 cooperados, divididos em equipes, ficam em outros pontos da cidade como shopping centers, supermercados e empresas. Segundo Sebastiana, “a separação é feita nos próprios locais. O Shopping Iguatemi, por exemplo, nos forneceu uma prensa, o que permite que o papelão já seja prensado e vendido de lá mesmo, sem nem passar pelo galpão”.

Das 40 toneladas recolhidas, em média, todos os meses, o único material comercializado diretamente para a indústria é o ferro. O restante é comprado por atravessadores. “Toda renda mensal é dividida igualmente entre os associados e, hoje, cada um recebe em torno de R$ 450,00. Temos um grande orgulho de nos sustentarmos com a venda do material reciclado e sabemos o benefício que isso representa para o meio ambiente”, garante Sebastiana.

COOP COELHO NETO - Rio de Janeiro (RJ)

Fundada em 1995, a Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis do Distrito Industrial da Fazenda Botafogo (ACMR), localizada no bairro de Coelho Neto, na Zona Norte do Rio de Janeiro, opera na capital e em municípios próximos. Em média 30 a 35 toneladas de recicláveis são recolhidas mensalmente, provenientes sobretudo da parceria com a Prefeitura, através da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) que destina à cooperativa a coleta seletiva da Zona Sul do Rio e de Furnas, subsidiária da Eletrobrás.

A triagem de todo material recebido pela Coop Coelho é feita pelas mulheres – no total, são doze cooperados, cuja renda mensal, com a desaceleração da economia, gira em torno de um salário mínimo. “No nosso galpão, temos uma prensa hidráulica para compactar o material separado que é vendido sobretudo para empresas terceirizadas. Nosso objetivo é chegar diretamente à indústria, mas, para isso, precisamos aumentar nosso volume mensal. Já há alguns anos, temos uma importante parceria com a Ambev que compra diretamente da cooperativa”, explica Claudine Ferreira de Souza Júnior, da área administrativa da cooperativa.

A entidade contou com apoio da Siscoop (Sistema de Controle de Cooperativas) e da Ancat com cursos de capacitação. “Recebemos também, via Ancat, cerca de RS 20 mil anuais de um programa da Coca-Cola”, diz Junior. Esse recurso tem sido fundamental para melhorias na entidade e aquisição de equipamentos. “Neste ano, estamos fazendo a reforma do portão que caiu e pagando as parcelas de financiamento do nosso caminhão.”

Atualmente, a cooperativa está equipada com um caminhão roll-on/off, cinco caçambas estacionárias e uma prensa. “Estamos sempre em busca de novos parceiros. Nossa meta agora é adquirir mais uma prensa para dar conta de um volume diário maior e também um caminhão menor para a coleta pontual em bairros vizinhos, hoje feita com carro de passeio”, planeja Júnior.

COOPERNOES - Brasília (DF)

A Cooperativa de Trabalho de Material Reciclado e de Educação Ambiental Nova Esperança (Coopernoes) nasceu em 2005, em uma área próxima a uma empresa aparista, a Capital Recicláveis, em Brasília. Inicialmente, reunia cerca de 100 famílias de catadores que faziam a coleta com carrinhos ou carroças puxadas a cavalo. No final do dia, o material era recolhido por um caminhão do Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal (SLU). Em 2007, em função de atos de violência no local, muitos catadores resolveram trabalhar no Lixão de Brasília. Quando o lixão foi fechado no início de 2018, a cooperativa foi transferida para um espaço alugado pelo governo do Distrito Federal que forneceu também empilhadeiras, prensas e esteira de triagem.

“Hoje, a cooperativa tem 36 catadores, todos registrados, trabalhando uniformizados, com EPIs e em instalações apropriadas. O local não é nosso, mas temos melhores condições, escritório com uma secretária administrativa, emitimos notas fiscais e recebemos cerca de R$ 304,00 pela tonelada comercializada”, diz Alex Pereira dos Santos, presidente da entidade.

A renda dos cooperados é, em média, de um salário mínimo. “Após o fechamento do lixão, o governo distrital nos ajudou durante seis meses, com cesta básica e uma renda complementar de R$ 360,00. A grande vantagem é que já sabíamos trabalhar de modo coletivo e foi mais fácil, mas muitas cooperativas não conseguiram se manter com essa renda. Nós não vivemos apenas da coleta seletiva solidária que recebemos do governo, fazemos coleta de rua e nos órgãos públicos federais do Setor de Indústria e Abastecimento”, conta Alex.

Além de se beneficiar de um programa da Coca-Cola, que destina recursos para melhorias na entidade, a cooperativa também participa de um projeto da Fundação Banco do Brasil com a Central de Cooperativas de Materiais Recicláveis do Distrito Federal e Entorno (Centcoop). “Fazemos parte do Eixo Estrutural Norte da Centcoop e usamos um dos sete caminhões doados pela Fundação para a coleta de rua. Nossa média atual é de 70 a 80 toneladas mensais, mas pretendemos chegar a 90 toneladas/mês”, comenta Alex. “Com a nova central de triagem que estamos construindo em um terreno próximo, até o ano que vem esperamos aumentar nosso volume e a renda mensal dos cooperados.”

Para saber mais: http://ancat.org.br/