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IMPRENSA

03
MAIO/2007
Reciclagem & Cidadania

O desenvolvimento sustentável é apontado por especialistas em todas as áreas como um dos grandes – senão o maior – desafios desse milênio. Mas dilema maior é encontrar os mecanismos que transformem a teoria em prática.

Conceitos tais como Responsabilidade Social Corporativa, Ecoeficiência, Produção Mais Limpa, etc, são amplamente difundidos e dissecados em fóruns de discussão os mais variados, sejam eles técnicos ou políticos. Muitas vezes nos perdemos nas boas idéias que não produzem efeito prático, mas em alguns setores já é possível quantificar os impactos positivos de ações pró-ativas de longo prazo. Tomemos como exemplo a questão do lixo urbano. Um problema mundial que se agravou com a concentração populacional em megalópoles e as desigualdades sociais que trazem inúmeros impactos nocivos ao meio ambiente, dentre os quais destaca-se o baixo grau de informação das populações, notadamente nos países em desenvolvimento. As soluções que têm sido propostas são as mais variadas e o setor empresarial tem sofrido para se adaptar à maioria delas. E por quê? As dificuldades residem exatamente no trato com as pluralidades socioculturais e as desigualdades socioeconômicas. Replicar um modelo bem sucedido de coleta seletiva da Alemanha pode ser inviável, por exemplo, para a maioria das nações em desenvolvimento. Mas isto não significa que tenhamos que esperar por mudanças profundas na estrutura de nossa sociedade para poder almejar equacionar a questão do lixo urbano. O Brasil tem dado o exemplo de que podemos avançar nessa área, aliando preservação ambiental com redução gradual da pobreza (duas das metas do milênio preconizadas pela ONU). E o grande responsável pelo avanço acentuado da coleta seletiva e reciclagem do lixo urbano no Brasil é o catador. Sim, ele mesmo, aquele indivíduo que vemos diariamente nas ruas para cima e para baixo, batendo de porta em porta, mudando hábitos, mudando comportamentos. Um trabalho silencioso, pouco valorizado, mas de impacto profundo. Graças aos cerca de 800.000 catadores brasileiros, alcançamos a impressionante marca de 11% de reciclagem de todo o lixo urbano gerado, maior índice entre países em desenvolvimento. Em 2005 foram recicladas 5,8 milhões de toneladas por nossa indústria de reciclagem, cada dia mais pujante. O modelo brasileiro, que alia benefícios sociais com ambientais, passou a ser exportado para outros países em desenvolvimento, notadamente na América Latina, Ásia e África. Mas é preciso avançar mais, especialmente na melhoria contínua desse sistema que emprega tanta gente. E o marco para essa guinada poderá ser a Política Nacional de Resíduos Sólidos que deverá ser aprovada esse ano no Congresso Nacional. Prefeituras e setor produtivo abraçaram a causa dos catadores. As prefeituras, responsáveis pela gestão do lixo urbano, passaram a inserir os catadores em seus modelos de coleta seletiva. O setor empresarial brasileiro também encontrou no catador o parceiro ideal para o exercício de parte de sua responsabilidade social e ambiental. Na prática o caminho está sendo trilhado, mas o marco regulatório permitirá que avancemos mais e melhor. Mais pela ampliação da coleta seletiva em todo o país e melhor pela organização dos catadores em cooperativas, aliando aumento de produtividade com higiene e segurança do trabalho. O CEMPRE – Compromisso Empresarial para Reciclagem – tem participado ativamente dessas discussões, promovendo debates, visitas técnicas e participando das audiências públicas na Comissão Especial da Câmara de Deputados, responsável por transformar mais de cem projetos de lei na futura Política Nacional de Resíduos Sólidos. Convidamos as lideranças empresariais a unirem-se a nós no CEMPRE nessa empreitada que colocará o Brasil de vez no rumo do desenvolvimento sustentável, ao menos na questão do lixo urbano. André Vilhena é diretor do CEMPRE. Formado em engenharia química pela UFRJ e mestre em engenharia de produção pela COPPE/UFRJ